doce...

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sombrio Domingo

Seu copo está vazio, mais uma vez Billie Holiday embala sua solidão.
Já é madrugada, mais um domingo sombrio a espera, fazem quatro anos desde a última noite de amor entre os dois, lágrimas se misturavam aos beijos e ambos sabiam que o fim era inevitável.
Ela se levanta e caminha até a janela, a cortina se balança levemente com a brisa fria do outono, abril é sempre melancólico por conta da despedida.
A saudade ferve em suas veias, transpira por seus poros, ela que era tão esfuziante se fechou em concha depois dos últimos momentos.
Mais um gole, ela olha para garrafa que está vazia, decide sair para respirar, a cidade está viva, cheia de pessoas fugazes em busca de prazer rápido, ela não, só quer vê-lo mais uma vez.
Entre tantos bares e botequins ela entra no mais escuro, não quer que ninguém veja o seu sofrimento.
Senta-se elegantemente com seu jeans apertado, pede qualquer coisa forte, o barista sorri e faz charme, mas os olhos grandes do outro lado só querem o olhar daquele que se foi.
Gloomy Sunday é interpretada por uma cantora desconhecida, a fumaça e a penumbra traz uma aura de mistério que a conforta.
Entre um gole e outro ela olha furtivamente ao seu redor, como se por um milagre ele se materializasse apenas sentindo o desejo do corpo dela.
Não naquela madrugada, ou em outra, nunca mais se amariam outra vez, era mais um domingo sombrio e ela sozinha iria beber e sonhar com aquele que um dia foi seu, e agora assombra sua memória.




* conto inspirado na música de Billie Holiday.
 


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Lagarta

As paredes brancas e desnudas do ambiente pouco caloroso aprisionam Marcela, que abre os olhos lentamente, após algumas piscadelas o borrão disforme vai tomando forma, aos poucos a imagem se converte na figura amada de sua mãe, que sorri e acaricia suavemente o rosto da moça.
 - Como se sente minha querida?
 - Estou com muita dor de cabeça, o que aconteceu?
 - Você sofreu um acidente, não se levante querida, o pior já passou, logo seu pai chegará com o Dr. Marcos e então poderemos conversar melhor, agora fique paradinha e descanse abelhinha.
Marcela sorri diante da lembrança, fazia alguns anos que sua mãe não mencionava seu apelido de infância, e pensando nisso adormeceu mais uma vez.
Passaram-se algumas horas desde o primeiro sinal de consciência de Marcela, o médico e amigo da família fez sua ronda matinal, conversou com seus pais e falou que voltaria no período da tarde, após os exames ficarem prontos, Marcela dormiu todo o tempo, os sedativos eram fortes, somente no terceiro dia de internação é que a moça recobrou seu estado normal, fez muitas perguntas, descobriu finalmente que ao se acidentar e bater com a cabeça, entre exames e ressonâncias foi encontrado um tumor benigno em seu cérebro um tipo de glioma conhecido como astrocitoma, fariam uma cirurgia para sua retirada. As borboletas que Marcela viu, foram alucinações provocadas pelo tumor, assim como as dores de cabeça que ela vinha sentido recentemente.
 - Então é isso? Eu tenho um câncer no cérebro e em vez de aproveitar minhas férias antes de iniciar a faculdade terei que convalescer em um hospital? E meus cabelos, vão raspar?
Entre lágrimas e soluços Marcela se desespera, sua mãe tenta se manter firme mas está tão preocupada quanto a filha, o único membro da família que continua aparentemente calmo é o pai de Marcela, apesar de não ser oncologista, sua experiência na área de ortopedia como médico de esportistas o faz entender melhor todo o processo que sua filha vai passar.
Passados alguns dias Marcela é operada, tudo sai como é esperado, o tumor é retirado, as consultas após a alta hospitalar são prontamente agendadas, a Faculdade é adiada para o próximo semestre, o que aborrece um pouco Marcela. 
- Tem certeza que pode esperar a sua consulta sozinha?
- Claro que sim papai, sei que você está atrasado para o trabalho, pode ir, mais tarde pego um táxi
Após beijar a filha o senhor de suave cabelos prateados se afasta, ao olhar ao redor ele pensa o quanto foi abençoado com a recuperação da filha, a sala ao lado está repleta de jovens em fase de tratamento da doença.
Marcela lê uma revista antiga de celebridades, as salas de esperam deveriam ter uma biblioteca pensa a moça, apesar de pálida, um pouco mais magra e com os cabelos bem curtos, Marcela conserva o olhar tranquilo e sorridente, algo que sempre chamou atenção em sua aparência.
Do outro lado da sala alguém a observa, Marcela logo se da conta que um jovem magro e alto está sutilmente olhando para ela, Marcela sorri, abaixa os olhos e continua folheando a revista.
Alguém se senta ao seu lado, a moça percebe que é o mesmo jovem que a observava alguns segundos atrás.
- Acho que deveria ter uma biblioteca em salas de espera
- Eu pensava exatamente isso enquanto olhava essa revista, diz Marcela sorrindo surpresa
- Eu me chamo Paulo
- Marcela
- Você esta acompanhando ou se consultando
- Acompanhando, minha irmã está em tratamento, e você?
- Consulta
- O que acha?
- Do tratamento?
-Não, da revista, sorri despreocupado
- Bem, é antiga, mas é o que tem no momento
E assim inicia uma conversa amigável e leve, coisa que Marcela sentia falta nos últimos meses.
- Foi um prazer te conhecer Marcela
- Igualmente Paulo, ao apertarem as mãos Marcela percebe um papel pequeno, com um número de telefone, no papel além do número está escrito " se você se sentir entediada, podemos falar sobre os dramas das celebridades"
Marcela sorri ao ver o bilhete, o rapaz sorri de volta  se vira e vai ao encontro de uma jovem um pouco mais moça do que Marcela.
Ao voltar para casa Marcela pensa em tudo o que aconteceu nos últimos meses, o tumor, a espera para ir para faculdade, o desinteresse por festas e até mesmo por Lucas, seu colega de escola e agora Paulo, um rapaz que conheceu em um consultório médico e que despertou sua curiosidade, de certa forma a abordagem do rapaz a fez se sentir viva e feminina, coisa que ela não pensava muito ultimamente, ela que se sentia uma lagarta em metamorfose, começou a perceber que tinha muito o que viver e agradecer, percebeu que era ainda bonita apesar dos cabelos curtos, coisa que ela não gostava, e da sua magreza e palidez.
Marcela sorri, e um pouco da jovem feliz e despreocupada aparece em seu olhar outra vez... 



 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Borboletas

Marcela estava esticada sobre a esteira, óculos escuro, biquíni branco de cortininha, a pele com um leve toque dourado. Os cabelos cor de mel espalhavam-se delicadamente dando um aspecto displicente a imagem daquele momento.
Absolutamente nada era mais importante do que ela, suas sensações de prazer ao sentir o sol derramando calor por sua pele, o vento fresco que batia e arrepiava os pelos dos braços e pernas, anuncio de que era hora de entrar.
Marcela amava o verão e todas as suas nuances de cores, aromas e sabores.
Cada momento que passava consigo mesma nesses últimos meses tinha um sabor especial, um toque melancólico de despedida da ociosidade que enfrentava ultimamente. Após anos de preparo e estudos Marcela finalmente entrara para a faculdade dos seus sonhos, em breve seria caloura no curso de jornalismo.
Esse era seu adeus as tardes preguiçosas na casa dos pais, em breve iria alçar voou, deixar o ninho, enfim se tornar uma senhorita adulta e responsável por si mesma.
Uma chamada no celular desperta a moça, maldita tecnologia pensa Marcela enquanto se vira preguiçosamente e apanha o aparelho, Ana, sua amiga de longa data avisa que esta confirmada a festa para logo mais e que Lucas está entre os convidados. Marcela sorri e se levanta, recolhe suas coisas e caminha pensando no vestido azul turquesa, comprado recentemente e que cairia bem com seu tom de pele e cabelos.
Após um demorado banho, a moça se arruma e segue para sala, beija sua mãe que lê um livro, avisando que voltaria mais tarde.
Enquanto dirige cantarolando uma canção dos Beatles, Marcela refaz o itinerário em sua mente, primeiro passar no mercado e comprar algumas bebidas, em seguida deixar os livros na biblioteca da cidade e depois ir para casa da Ana, mas enquanto dirige Marcela percebe algo estranho, uma nuvem negra e espessa no céu, crescendo e vindo em sua direção, intrigada reduz a velocidade do carro e ao observar mais atentamente percebe que se trata de milhares de borboletas, de várias cores e tamanhos.
Boquiaberta com o que vê, continua dirigindo com cautela, as borboletas se aproximam mais, até baterem contra o vidro, muitas delas, se debatendo, grudando, sujando e o pior atrapalhando sua visão.
Estou enlouquecendo foi o último pensamento de Marcela antes de bater em outro veículo e cair desacordada, presa ao cinto de segurança.

Continua...